CIBERTECÁRIOS
FONTE: FSP, 23 de maio de 2004 - Revista da Folha, p. 26 - Débora Yuri
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EDUCAÇÃO
Cada vez mais digitalizadas, bibliotecas abrem espaço para um novo tipo de profissional, o cibertecário
Marcelo Soares/Folha Imagem
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Computadores com acesso gratuito à internet, que foram instalados na biblioteca Sérgio Milliet, no Centro Cultural São Paulo |
Adeus às estantes
Pense num bibliotecário. Agora delete a biblioteca e os livros. O que sobrou é o ambiente de trabalho de Renate Landshoff, 44. "As paredes das bibliotecas foram derrubadas. Em nosso cotidiano, é cada vez menos comum ficar numa sala rodeada de estantes, esperando um usuário", diz ela. Renate pode ser considerada uma cibertecária -a nova biblio-tecária, que lida com todo tipo de acervo avançado tecnologicamente, gerenciando informações em ambientes virtuais.
Com a evolução e a profusão da informática, a biblioteconomia é uma das carreiras que mais tem sofrido transformações, tanto que já há profissionais brigando para que o nome bibliotecário seja substituído por cientista ou administrador da informação. "O futuro da carreira está nas mídias tecnológicas", afirma Waldomiro Vergueiro, 47, chefe do departamento de biblioteconomia e documentação da ECA (Escola de Comunicações e Artes), da USP. "O campo de atuação do bibliotecário se ampliou. O essencial agora é a organização da informação, não apenas de livros."
Aberta há um ano, a empresa de Renate faz exatamente isso: presta consultoria a firmas que desejam recolher e organizar informações de seu interesse para alimentar a sua intranet (rede interna). "Não sei mais que nome dar à minha própria profissão, mas eu diria que sou especialista em gerenciamento de conteúdos", afirma.
Já a cibertecária Ana Maria Lima, 42, trabalha na midiateca -versão modernizada da biblioteca- do colégio Peretz, na Vila Mariana. "A informação não está mais só no papel, e as aulas não se restringem à classe, então eu oriento os alunos a fazer pesquisas corretas na web", conta ela, que também municia os professores.
"Se uma classe está estudando transgênicos, por exemplo, eu faço uma pesquisa on-line e passo os sites com as melhores informações relacionadas ao tema para o professor, que repassa aos estudantes. O perigo é o jovem solto na internet achar um monte de informações erradas", diz.
Com as novidades no campo de trabalho, cresce o interesse pela carreira. Na última edição da Fuvest, biblioteconomia registrou 12,83 candidatos/vaga, briga maior do que a de cursos tradicionais como odontologia (10,52) e praticamente igual à de economia (12,91).
Luiz Atilio Vicentini, 47, coordenador do sistema de bibliotecas da Unicamp, diz que os cursos de graduação estão enfatizando as novidades tecnológicas. "A nova safra de bibliotecários será muito diferente, porque agora é impensável um profissional que não domine o computador, assim como não dá para imaginar uma biblioteca funcionando sem micro."
E a biblioteconomia está mudando também porque o cliente está cada vez mais virtual. Um exemplo desse novo tipo de usuário é aquele que usa os serviços da Biblioteca Virtual, do governo do Estado, que faz pesquisas personalizadas de graça para a população há dois anos.
"As solicitações devem ser enviadas ao e-mail biblioteca.virtual@sp.gov.br, explicando o tema desejado e o prazo limite. Não utilizamos livros para fazer as consultas", diz a bibliotecária e coordenadora Regina Fazioli, 48. "Nem lembro direito como é uma biblioteca tradicional", completa ela, que trabalha numa sala sem li-vros nem estantes, apenas computadores.
Mas, se pesquisar na internet é tão rápido e confortável, as bibliotecas vão ficar às moscas? Para Marfisia Lancellotti, 52, diretora-técnica da Mário de Andrade, a maior biblioteca pública do Brasil, a internet não vai acabar com os bibliotecários e muito menos com as bibliotecas. "A web pode ser, no máximo, um guia, porque a confirmação das fontes está nos livros, com exceção dos sites que têm respaldo científico. Para fazer uma pesquisa séria, não dá para usar só a rede."
Enquanto se modernizam, as bibliotecas têm experimentado também um aumento no número de visitantes. Na Mário de Andrade, onde apenas 25% do acervo está disponibilizado em arquivo eletrônico, o número de usuários diários subiu de 600, em 2002, para 1.400, hoje. Além disso, nos últimos três anos e meio, foram abertas 22 bibliotecas públicas em São Paulo, todas com computador.
No Centro Cultural São Paulo, onde a prefeitura instalou computadores em meio às estantes de livros, a expectativa é que até novembro todo o acervo esteja disponível para consulta on-line, segundo o diretor Carlos Augusto Calil, 53.
Lá, o número de usuários também subiu: em 2003, foi registrado um aumento de 38% no total de visitantes em relação ao ano anterior. Fernando Modesto, 46, professor do curso de biblioteconomia da ECA/USP, credita o aumento de popularidade das bibliotecas públicas justamente aos avanços tecnológicos. "Quando a biblioteca começa a ser identificada como local com presença do meio eletrônico, ela fica mais atraente para a comunidade, atinge um público mais amplo", afirma.
"O usuário não quer mais o livro da biblioteca, e sim o conteúdo que pode ajudá-lo" Renate Landshoff, 44, cibertecária
Escrito por Renate às 12h24
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